Multiplexado

Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Sexta-feira, Julho 04, 2008

 

Funções de tecnologia podem ser consideradas de "produção intelectual"?


Segue definição que encontrei dentro do Programa de Pós-Graduação em Artes da Unicamp:
"Produção Intelectual são realizações de própria autoria ou em parceria, dadas à publicação, que se materializam em forma bibliográfica (livros, capítulos de livros, artigos em periódicos ou anais...); técnica (apresentação de trabalho, organização de eventos, organizar e/ou ministrar cursos de curta duração, relatório de pesquisa...); artística/cultural (apresentação de obras artísticas, obra de arte visual, arranjo musical)."

Caberia encaixarmos as atividades de tecnologia da informação e seus principais papéis (programador, analista de sistemas, engenheiro de software, etc) como atividades de produção intelectual?

Pegando o conceito acima ao pé-da-letra, talvez não. E levando para o exercício de TI em Fábrica de Software muito menos ainda. Dentro de Fábrica, é certo que se procura a viabilidade de uma maior escala de produção. Isso passa necessariamente pela retirada da inteligência das pessoas e colocação dessa inteligência nos processos. Isso cria uma "casta" de pensadores - normalmente os SEPG's (Software Engineering Process Groups) - e uma Shudra de "fazedores" - as pessoas que, de fato, trabalham nos projetos de Fábrica e seguem os processos desenhados pelos Brâmanes do software.

Partindo desse pressuposto, em ambientes tradicionais de TI, a produção intelectual está concentrada em um pequeno grupo. A maior parte das pessoas dentro do ambiente produtivo apenas executam tarefas pré-programadas. É claro que na execução dessas atividades as pessoas usam suas faculdades intelectuais. O que acredito é que essa hierarquia não favoreça a transferência do conhecimento em todas as direções, prejudicando sim as organizações a longo prazo.

Essa reflexão sobre Brahmin, Shudras ou até mesmo os Párias faz parte de uma crítica pessoal sobre a indústria brasileira de software. Insistimos em copiar o modelo de desenvolvimento de software da Índia, que provavelmente foi desenvolvido sob a luz de uma estratificação característica da sociedade indiana e que mata a criatividade e talento característico brasileiro.

Aliás, na minha experiência de Fábrica de Software, o talento brasileiro não era de todo eliminado. As pessoas normalmente não acreditavam em certas atividades, então usavam o jeitinho brasileiro para burlar e subverter o que consideravam impróprio ou inadequado ao projeto.

Copiamos aqui o modelo indiano, enquanto profissionais dos países líderes se recusam a trabalhar em regimes de produção que desconsiderem o talento individual e prezam apenas pela produção massiva. Já falei sobre isso aqui há dois anos atrás: enquanto a indústria de software dos BRICs tem ênfase Fordista, outros países como Suécia, Finlândia, EUA, Canadá e Japão trabalham em modelos mais evoluídos.

Seriam os Párias das castas indianas os Programadores da casta de software?

Voltando as vacas pretas...

Depois do fracasso geral da Carreira em Y nos ambientes tradicionais de produção de software, e considerando que o Google não tem emprego para todo mundo, resta aos profissionais de pegada técnica encontrar caminhos para preservarem a condição de agentes de produção intelectual em seus ambientes de trabalho.

Como esse tema vai dar muito pano para manga, encerro esse post por aqui, retomando mais tarde para falar como alguns desses aspectos são absolutamente enterrados no exercício de TI em outros mercados, principalmente os de propaganda, entretenimento, mecatrônica e artes.

O mundo não está perdido! Abraços, valeu!

Terça-feira, Julho 01, 2008

 

Gerando arquivos .DAE (Collada) para o Papervision3D usando o Google SketchUp


Na minha horinha de hoje do projeto Caffeine da Colmeia não avancei em código. Eu procurei na web uma xícara em 3D, que pudesse usar na minha visualização. Não encontrei nada que fosse o suficientemente simples para o Papervision: um modelo que fosse bom para realtime, com poucos vértices.

O Papervision3D lê um formato chamado Collada. Eu não manjo nada de modelagem 3D, mas googleando, vi que é possível gerar arquivos collada com o Google Sketchup. Se você não conhece o Sketchup, ele faz o desenho 3D ficar tão fácil quanto o desenho 2D com as ferramentas nativas do Flash. Olha a belezura de Xícara que eu fiz com apenas alguns minutos de interação com a ferramenta:

Xícara modelada por mim no Google Sketchup
Eu mesmo modelei a tosqueira em apenas alguns minutos, após ver os video-tutorials do site do produto.

Para gerar arquivos Collada para uso no Papervision3D, baixe o Google Sketchup e depois siga os macetes comentados neste link. Veja o avanço da minha visualização do Caffeine com a xícara 3D aplicada:




Cada xícara na tela representa um café bebido no dia de hoje na Colmeia. Para saber mais sobre o Caffeine, veja o post anterior ou acesse direto a página do projeto.

Quinta-feira, Junho 26, 2008

 

Caffeine - Café, hack de cafeteira e visualizações interativas


Meus amigos da Colmeia lançaram dentro do seu Lab um produto muito bacana: o Caffeine.

Trata-se de uma hackeada na cafeteira que fica lá na copa da Colmeia, onde pude filar uns pães com manteiga nuns dias que passei em Sampa com eles. Conheci a cafeteira antes do procedimento aplicado, mas confesso que só tomei café da garrafa térmica - esses cafés de moça da copa - que prefiro em relação ao expresso.

Flávio e Teta nerdizando no arduino.
Flávio e Teta nerdizando no Arduino - clique se quiser saber mais sobre o hardware da parada.

A galera botou uma cafeteira na Internet, e cada vez que alguém pede o café, "god kills a kitten" e esses dados ficam disponíveis para que os vejamos na web. Apesar da relevância ZERO da informação, a prova de conceito é sensacional =).

No site tem uma chamada para que outras pessoas construam visualizações do consumo de café dos ursos, e eu já comecei a fazer a minha, sem prazo para terminar, já que estou cheião de coisas pra fazer (ainda bem). Segue a palhinha da minha hora dedicada de hoje - estou tentando um visualizador dos dados de consumo usando Papervision3D na versão GreatWhite. Conforme for avançando, posto por aqui e depois coloco os sources para download.


Olha a micragem aê... (work in progress, depois gasto mais uma hora para dar andamento).. Valeu!

Terça-feira, Junho 24, 2008

 

Sobre desenvolvimento de trabalhos altamente interativos e o profissional de front-end


Hoje eu tava lendo alguns tópicos do Radinho e escrevi uma mensagem para um cara que eu admiro muito, o Rodrigo Ratan, que é participante ativo da lista e manja muito de Silverlight.

Nessa mensagem eu falava sobre um antigo incômodo, que foi tema de papos com amigos tipo o Marco Gomes na época que trabalhavamos juntos. Fala da subvalorização do profissional de front-end (seja Flash, Silverlight, XHTML+CSS, Javascript ou o que for). Esse pessoal hoje faz a parte mais difícil e tecnicamente avançada do trabalho de produção, e as vezes a sua hora dentro do modelo de cobrança das agências não correspondem a qualificação técnica exigida para o sujeito poder trabalhar bem.

Esse para mim é um pilar que permitirá profissionalizar mais ainda o mercado de produção de propaganda interativa. Então, se você tem perfil técnico, por favor, leia com atenção e me ajude a batalhar para reverter essa leitura do mercado =).

Segue o tópico, endereçado ao Ratan:

Gostaria de revelar uma coisa que me incomoda há muito tempo e não tem relação com Flash ou Silverlight, mas sim com uma visão enraizada no mercado: o fato das atividades de backend (serviços, bancos de dados, etc), serem sobrevalorizadas em relação as de frontend (parte client-side da aplicação).

Caso clássico do game que você colocou: Um bom game em Flash ou Silveright exigirá dos programadores da parte de frontend pelo menos bons conhecimentos de física, noções de gameplay, de fun-factor, boa experiência como jogador, noções de animação e integração de gráficos, noções de 3D, Isometria, aplicação de vídeos, tem que ter noção de Inteligência Artificial, saber cuidar de sound libraries, noções de performance, otimização de código, cuidar de memory leaks no cliente, cuidar de problemas com dispositivos específicos, abstração absurda para lidar com complexidade de código, modularização, controle de carga do game, cuidar do peso em kb do game, efetuar testes em um bom espectro de máquinas e condições de acesso, etc, etc, etc.

E a parte de servidor (banco de dados), o cara põe um serviço num servidorzão, implementa lá a persistência do game e acabou por aí, com uma leve exceção no caso de games multiplayer, que exigem serviços síncronos e que adicionam complexidade tanto no back quanto no frontend. Cá entre nós: tu que curte .NET sabe que o próprio .NET tem recursos que matam toda eventual complexidade desse tipo de trabalho, exigindo apenas que você faça uma boa modelagem (coisa que se aprende em qualquer faculdade de computação tradicional).

Então eu acho que a carência de "programadores de verdade" está muito mais na parte gráfica e interativa, que vai para o browser rodar em qualquer plugin, do que na parte de backend e de persistencia de dados. Assim como quase tudo na TI tradicional, backend é bem commodity. Não concordo quando se sobrevaloriza isso. Deveria se valorizar um bom enlace disso =).

É um problema absolutamente "trans-plataforma" esse: e não se trata de questão de "ego" dos profissionais, mas sim tem relação com possibilidades de carreira e valor de hora-homem do sujeito - essa grande doença que assola as agências interativas, que não sabem cobrar de outro jeito e talvez por isso não consigam bancar bons salários para as pessoas.

De uma forma ou de outra, o teto do salário de quem faz frontend em Flash ou Silverlight vai ser definido pela hora-homem padrão do mercado para essa atividade. O que colocaria no mesmo balaio o "Flasheiro Gateiro" que você citou com uma outra gama de grandes desenvolvedores client-side como o Zeh Fernando (já falado na thread) ou o Malungo, Teta, Cauê e Dias (Colmeia), Debert, Laet e Neto Leal (Gringo). Esses caras tão voando em céu de brigadeiro talvez porque saíram da prisão da hora-homem e podem exercer seu talento dentro de grupos que executam a ponta de todas essas disciplinas.

Ou será que eu tô viajando e não tem nada a ver? Essa é apenas a minha hipótese. =)


E vocês, o que acham? Por favor, comentem. E se concordam, ajudem! =)

Terça-feira, Junho 17, 2008

 

Camaleão. Agora esse é um espaço dedicado a produção de propaganda


Tô aproveitando o fechamento do período de Cannes para dar uma arrumada na casa. Estive praticamente quatro meses imerso em um grande volume de trabalho e abstinência social. Período esse que se fechou há pouco, com o término do julgamento dos leões.

No segundo semestre de 2007 (tá fazendo um ano), embarquei numa nova jornada. A jornada onde regressei ao mercado de produção de propaganda.

Deixei de trabalhar com atividades de user experience em fábrica de software, assunto largamente comentado nesse site, para voltar ao mercado de comunicação lidando com todo tipo de tecnologia que propicie experiências interativas.

Como bom humanista que aprendi a ser, estou trabalhando com tecnologias da mídia numa pegada de propaganda, sem a burocracia e engessamento da TI tradicional quando tenta produzir para publicidade. Estou absolutamente convencido que não dá para atender o mercado de propaganda emulando o comportamento de empresas de TI dentro das agências, modelo mais usado hoje.

Voltei para o mundo da publicidade na condução de minha própria produtora, a Adjetiva. Essa empresa possui programadores malucos que desejam ser caras de propaganda, e não de TI. Tem gente de criação que cria junto com programador. E todo mundo cria junto ou alinhado com o diretor de criação das agências que a gente atende. A gente conversa com gente, com video, com audio, com 3D, com ilustração ou o que mais se faça necessário na produção dos trabalhos. Todas as pessoas se envolvem com os projetos e constroem coisas de maneira transdisciplinar. A gente acredita que isso faça toda a diferença.

Essa produtora, nascida em setembro de 2007, conseguiu na sua tenra idade produzir um dos shortlists de Cannes conquistados em 2008 pela AgênciaClick, em um ano tão difícil para o nosso país nesse festival. Pelo menos para mim, esse shortlist tem peso de ouro principalmente por ser um indicativo que o nosso jeito de pensar está dando certo.

Daqui eu encerro essa coisa de falar da empresa pelo fato desse espaço ser pessoal. Aqui não falarei muito de campanhas, como muitos blogs excelentes por aí. Vou tentar colocar linhas de raciocínio e estabelecer um viés de análise de produção técnica, território praticamente virgem no campo das blogagens de propaganda. Estou todos os dias buscando qualificação técnica para ser um cara de comunicação que entenda bastante de TI (ou vice-versa). Essa vem sendo a minha vida profissional, e quero dividir isso com vocês por aqui.

Quero conversar com a nerdaiada que tá fazendo a revolução. A nova ordem da produção interativa. O programador criativo, o diretor de arte que manja muito do meio, o diretor de criação que quiser entender como funciona uma tecnologia aqui comentada e quiser usar isso de input criativo, redatores e pessoas que gostem de propaganda interativa.

Começou, e tem muito pano pra manga! Abraços...

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Quinta-feira, Abril 17, 2008

 

Equilibração - o processo!


Enquanto estou inevitavelmente esperando um processo aqui no trabalho ser concluído, aproveito pra escrever um pouco pra vocês.

Tempo desses, tomei uma corrigida indevida quando usei o termo equilibração, que tinha visto na época da faculdade e revi durante a temporada de estudos de UX. Equilibração existe, sendo diferente de equilíbrio. Enquanto equilíbrio é um estado, a equilibração é um processo pelo qual se persegue esse estado de equilíbrio. É claro que esse termo fica bem mais denso na teoria de Piaget. O que a gente tá falando aqui é de algo mais simples e pragmático: equilibração para você, no cotidiano.

Para mim, equilibração se consegue normalmente conciliando premissas conflitantes. Por exemplo, agora eu tenho que equilibrar meu papel de família (pai e marido) com o meu papel no trabalho (diretor da minha empresa). Dois papeis que exigem tempo disponível e grande dedicação.

Não existe a alternativa de deixar uma coisa ou outra desandar. Família e trabalho são muito importantes. Antes que me acusem de ser desumano, família é bem mais importante para mim, viu? É importante contextualizar também que o bem-estar da minha família depende que eu tenha um bom desempenho no trabalho. Eis uma parte signficativa do enlace da vida, que explica o motivo do equilíbrio ser importante. Tem que cuidar bem das duas coisas.

Para mim, uma parte importante da equilibração é tentar tomar as microdecisões adequadas na sua vida. Tipo "Vou almoçar com a família hoje e não posso abandonar esse compromisso.". Ou coisas como: "Preciso adiantar a parte alfa desse trabalho para poder passar o sábado com meu filho.". Bah, não vou explicar mais, vocês entenderam. Uma microdecisão errada em relação a família ou trabalho pode ter efeito cascata que pode fazer você não ir bem em nenhum desses planos.

Ricardo Saldanha, sujeito que eu admiro muito, costuma sempre dizer em suas incursões on-line o que os antigos já diziam: Virtus in medium est, ou algo como "A virtude está no meio". Eu acho que o caminho é por aí. Sigamos equilibrando! Me aperfeiçoar nisso é a coisa que eu mais desejo aprender nos dias de hoje. Torçam por mim! Abraços...


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