Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
É comum no desenvolvimento de novos papéis e disciplinas de trabalho o surgimento de uma certa confusão inicial entre as pessoas do meio.
Fazendo um breve apanhado histórico, podemos lembrar da ascensão e queda do papel do webdesigner, do surgimento da arquitetura da informação, da grande migração dos profissionais de TI e seus processos para a web e mais recentemente, dos fenômenos da usabilidade e do despertar do mercado para a necessidade do uso de padrões.
Tudo isso acaba trazendo muito pano para manga para discussão, principalmente durante o período de formação massa crítica no mercado.
Essa massa é composta por pessoas como eu e você, gente do ambiente produtivo. Nossos times é que selecionam e incorporam o conjunto de conceitos e técnicas que realmente se aplicarão no nosso "chão de fábrica", num processo de renovação contínua.
Na nebulosidade de novos conceitos, a tendência natural das pessoas é puxar a sardinha para o seu lado. Em se tratando de Experiência do Usuário, já acontece muito. É sobre isso que vamos falar nas linhas que se seguem.
Aspectos humanos e aspectos tecnológicosNo processo de Experiência do Usuário, é fundamental o respeito e a priorização dos aspectos humanos alcançados pelo nosso trabalho.
O pensamento geral e os artefatos que produzimos são construídos sempre de maneira centrada no usuário. E o usuário, como pessoa, possui um conjunto de atributos humanos que influenciam na forma como ele lida com o software que produzimos. Desculpem o pleonasmo na frase anterior. Foi para dar ênfase mesmo.
Os conceitos envolvendo a Experiência do Usuário podem ser aplicados em qualquer plataforma tecnológica. Muitas vezes até ultrapassam isso. Você pode estudar um cardápio de restaurante do ponto de vista do usuário, para citar um exemplo diferente.
Aqui nesse site, priorizaremos o tratamento da experiência no uso de software, mas a disciplina não acaba nesse horizonte. Um dos meus mentores on-line (Fred) já fez e descreveu cases bem bacanas. Segue um deles para você degustar em
http://www.usabilidoido.com.br/o_caso_do_disco_dos_doshas.html.
O caso especial dos padrões webNos últimos tempos, o conjunto de recomendações conhecida como padrões web (ou webstandards) vem revolucionando a maneira de como as pessoas constroem aplicações para a web.
Esse processo é extremamente positivo, e na maioria dos casos, vem sendo tocado pelos desenvolvedores web (XHTML, CSS, Ajax, etc). Essas pessoas é que levantam as necessidades nas organizações, evangelizam gestores, convencem clientes e trabalham para a construção de software mais acessíveis e usáveis.
Os padrões web foram concebidos de maneira centrada no usuário. Praticamente todos os fundamentos da Experiência para a maioria dos autores estão contemplados ao seguirmos de "A a Z" as recomendações do W3C.
É importante ressaltar que um projeto webstandard bem escrito e corretamente avaliado já implementa boa parte dos requisitos que desenham a Experiência do Usuário como um todo. Mas o desenho da Experiência não é exclusividade dos padrões. Também é possível contemplar esses requisitos fora da web, com o uso de outras tecnologias.
Ou seja: por mais que o pessoal dos padrões batam o pé e sejam contra outras tecnologias, não podem se considerar detentores exclusivos da User Experience. Eles à implementam, não à são.
O caso do Flash/RIAOs discursos calorosos da Macromedia no início do movimento RIA foram encarados com ceticismo por uma boa parte da comunidade, desde aquela época. Uma tecnologia fantástica como o Flash, que tem a sua aplicação em diversos casos (inclusive na web) pode ser facilmente acusada de ter tentado "monopolizar" a "Experiência", como se essa tecnologia fosse o único meio de alcançar esse conceito dentro ou fora da web.
É possível trabalhar a Experiência do Usuário dentro do Flash, assim como em outras tecnologias. O que não se pode é acreditar que o Flash seja o único caminho para isso, até pelo motivo de possuir ainda muitos entraves em tratamento. Desses entraves, vale comentar principalmente as questões de acessibilidade.
Essas questões ainda estão em resolução na plataforma, e tem dado muita dor de cabeça para o time que participo lá no meu trabalho. Ainda não desistimos do desafio. Mas sabemos já que as coisas não são tão simples quanto os papers e apresentações da Macromedia colocam junto do seu material para desenvolvedores.
O Flash, pelo seu histórico, não teve necessariamente a sua evolução de maneira centrada no usuário. Todavia, a Macromedia vem correndo atrás nos últimos tempos para adaptar a orientação de seus produtos.
No final das contas, a intenção aqui não é favorecer "essa" ou "aquela" tecnologia, mas sim levar em consideração todas as opções tecnológicas que respeitem ou tenham a intenção de respeitar os usuários. E também de não deixar nenhuma tecnologia ou plataforma tomar de conta da Experiência, é claro.
A emoção levada em conta, muito mais importante que a tecnologiaFalando em desatrelar a Experiência de aspectos tecnológicos, termino o texto citando o amigo virtual Caparica, dentro de um tópico da ArqHP. A ArqHP é uma excelente lista de discussão sobre padrões web da qual eu participo e recomendo para as pessoas.
Disse o Caparica, no meio de uma tread calorosa na lista:
"Dirigir um Corsa 2006 é, em termos de usabilidade/design/ergonomia/etc, muito mais 'Prazeroso' (subjetividade aqui em destaque) que dirigir um Fusca 1968. MAS, pra muita gente - eu aqui incluso - a 'Experiência de uso' de um Fusca 1968 é, em disparado, algo melhor. Outros fatores - emocionais - fazem muita diferença."
Nos vemos então no próximo texto, onde estarei lembrando do ronco do VW 1600 com estofamento de couro e calotas prateadas. Até lá!