Multiplexado

Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Quarta-feira, Junho 28, 2006

 

Theodor Nelson bate na web, nos "tekkies" e na artificialidade das metáforas que utilizamos na realidade computacional


Dias atrás, o colega Luciano Lobato postou na lista ArqHP um texto muito interessante, resultante de uma Aula de Ted Nelson na PUC-SP. Infelizmente não consegui capturar a data que essa visita ao Brasil ocorreu. Achei esse texto muito bacana e resolvi anotar algumas coisas aqui para compartilhar com vocês.

Ted Nelson é o sujeito que recebe os créditos por ter cunhado o termo "hypertext" (hipertexto), publicando isso em 1965. Hoje, ele dá alfinetadas na maior implementação do conceito que ele mesmo criou: A World Wide Web, que foi desenvolvida muitos anos depois por Tim Berners-Lee.

Nelson tentou emplacar o tal do Projeto Xanadu, que foi fundado em 1960. Segundo Ted, o Xanadu é um modelo mais inteligente do que os softwares de hoje, que são meras simulações de papel.

Para ele, essa coisa toda de manipular "documentos", "arquivos", "pastas", "desktops" e "lixeiras" são exemplos de metáforas que prendem as pessoas, deixando-as presas a comparações e limitações.

É nesse bonde que ele coloca também a web, de Berners-Lee, que enterrou definitvamente o Xanadu. Na ótica do Nelson, a web é estruturada em estruturas limitadas chamadas "páginas", com os seus links de mão-única para a navegação entre elas.

Ted acusa esse modelo de ser simplista e de não favorecer o caminho reverso da informação. O interessante é se pararmos para pensar, as acusações dele fazem sentido. Tanto é que o conjunto de serviços aclamados como a tal da Web 2.0 é baseado nesse tipo de necessidade.

Como já diziam os antigos: A história sempre é escrita pelas mãos do vencedor. O Nelson perdeu essa batalha, e o Xanadu nunca saiu do papel. Contudo, fiquei maravilhado por poder acompanhar a ótica do perdedor, tendo a chance de ver o outro lado da moeda.

Vamos à algumas coisas que Nelson constrói em seu raciocínio:

Sobre o browser (navegador)

"Tentar compreender a estrutura em grande escala de páginas da web interligadas é como tentar olhar para o céu à noite (...) através de um canudo de refrigerante."

Sobre treinamento

"O chamado 'treinamento em informática' é uma ilusão: eles ensinam à pessoa as estranhas convenções e esquemas atuais (Desktop? Isso parece uma mesa de trabalho? Uma mesa vertical?) e dizem que é assim que os computadores são. Errado."

Sobre o mito dos laboratórios Xerox PARC

"A conhecida história sobre a Xerox Parc, de que eles tentaram tornar o computador compreensível para o homem comum, é uma enganação. Eles imitaram o papel e as máquinas de escritório conhecidas porque era isso que os executivos da Xerox conseguiam entender. A Xerox era uma companhia devoradora de papel (...)."

Sobre Steve Jobs

"Foi Steve Jobs quem orientou o trabalho da Parc para o mal. Ele pegou uma equipe da Parc e fez um trato com o demônio, e esse trato foi chamado de Macintosh."

Sobre os "tekkies"

"A visão tekkie é geralmente a mentalidade do trabalhador braçal: primeiro você faz este serviço, depois faz aquele serviço, tudo o que lhe mandarem; (...) quando você termina o trabalho que lhe atribuíram, passa para o próximo trabalho da lista."

Sobre o software de escritório ser desajeitado

"Pense em quanto tempo demora para abrir e dar nome a um arquivo e um novo diretório. Enquanto isso, o software de videogame é ágil, rápido, vivo. Por que isso acontece? Muito simples. Os caras que criam videogames gostam de jogar videogames."

Não deixe de fazer a leitura completa do texto.

Nelson, Theodor. (Consultado em Junho de 2006) "Libertando-se da prisão da internet". http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2674,1.shl

Comentários:
Ele é ácido... Seria a raiva contida no perdedor? A sede de vingança?

É claro que, conceitualmente, o Xanadu é melhor, mas o mundo estaria preparado pra ele? Teríamos hardware? As pessoas iriam querar "aprender" a mexer no sistema? Afinal, ele parece BEM mais complexo que a web pobretona. Provavelmente minha tia de 40 anos não iria se interessar em um sistema tão complexo, com links múltiplos de mão dupla e um navegador que exiba uma infinidade de conteúdo.
 
Oi Fernando,

Valeu pelo comentário (lá no blog). Tenho acompanhado seu blog e tenho achado bem interessante suas reflexões sobre as metodologias de empresas de engenharia de software x agências de design, e como elas podem ser complementar.

Embora eu não acredite que o Nelson vá voltar tão cedo, a palestra dele no FILE pode ser vista no dvd do evento (obs. não tô ganhando nenhuma comissão pela propaganda hehe).

[]s!
 
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