Multiplexado

Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Segunda-feira, Julho 31, 2006

 

Centrar no usuário passa necessariamente por convergir as disciplinas de trabalho


Volta e meia temos a chance de bater um papo com os amigos que estão em outros cantos da terrinha e também de outros lugares do mundo. A parte boa a que a gente mata a saudade. A parte ruim é a recorrência em todo canto de relatos sobre a dificuldade de relacionamento entre pessoas de disciplinas diferentes.

Rixas entre designers, programadores, analistas, arquitetos, profissionais de projetos, de atendimento e até mesmo em relação aos clientes tornam inúteis boa parte da energia que deveria estar concentrada em benefício dos usuários finais. Esses sim é os que saem mais prejudicados quando não existe sintonia de equipe.

Implantação de modelos de produção do tempo do guaraná de rolha

É muito fácil mergulhar nos preceitos acadêmicos de cada disciplina, seguí-los a risca e exigir que as pessoas de outras áreas se adaptem ao jeito que você aprendeu a trabalhar. Isso foi supimpa no passado. Taylor achava isso legalzão. Ford usou isso pra fazer carros mais baratos na década de 20.

O interessante é que já faz um bom tempo que esse pensamento está superado no resto da indústria. Desde 1940 já se fala em uma abordagem humanística para isso tudo.

Depois do Fordismo, vieram o Toyotismo e uma série de outros movimentos, com suas soluções e seus novos problemas. Muitos deles surgem justamente atacando a especialização desenfreada defendida pela indústria anglo-saxônica.

Segundo o Volvismo, por exemplo, um alto grau de qualificação profissional não quer dizer exatamente a mesma coisa que um alto grau de especialização profissional. A alta qualificação respeita muito mais a inteligência humana e o trabalho em equipe do que você se especializar demasiadamente em fazer uma única função, sem conhecimento do todo.

Para encerrar o assunto do Fordismo, a mesma Detroit que serviu de contraponto para os Japoneses desenvolverem o movimento do Toyotismo, hoje é uma cidade fantasma. Digo isso segundo relatos do meu amigo André Mitchels em visita à sede da Compuware na semana passada. Nem o Robocop quer saber mais de Detroit, muito menos o pessoal da Ford.

No entanto, tem gente que ainda insiste em inserir uma divisão de trabalho arcaica na hora de trabalhar com projetos de novas mídias. Isso constitui um absurdo conceitual que assola boa parte da indústria do software nos dias de hoje.

Falta de conhecimento e de respeito pelas atividades dos outros

Hoje, o mínimo de qualidade que um produto ou serviço deve ter normalmente envolve atividades de inúmeras disciplinas, onde todas as etapas tem a sua importância. Pessoas são pessoas, não importa se de exatas ou humanas, de computação ou de desenho, de economia ou de administração, de marketing ou direito.

Não entender suficientemente o trabalho que o outro faz pode nos levar a besteira de subdimensionar suas atividades. Essa talvez seja a faceta mais cruel do modelo de especialização imposto pelo mercado.

Preconceito patrocinado

E as empresas, por sua vez, pecam a também não conhecerem o valor real de todos os papéis envolvidos nos projetos. Em alguns casos, pude acompanhar a implantação de culturas de privilégios a determinados segmentos de empresas. Esse tratamento desigual acaba afastando todos os bons profissionais que não pertençam as áreas focais do negócio. Justamente os profissionais que são extremamente importantes no processo como um todo, e que só se percebe a falta depois que vão embora das suas posições de trabalho.

Existe uma grande falta de inteligência corporativa, onde o preconceito interno entre as áreas acontece patrocinado pelos níveis estratégicos das empresas. Esse modelo de preconceito é muito comum em Agências que privilegiam demasiadamente as áreas de Criação, ou também em Empresas de Software (Fábricas) que privilegiem somente as áreas técnicas e de processos.

No final das contas, as Agências acabam produzindo projetos bonitinhos e capengas do ponto de vista tecnológico, e as empresas de software acabam por produzir software escalável e parrudo, mas também feio, desengonçado e sem capacidade de uso. É extremamente difícil para os clientes encontrarem fornecedores que produzam simplesmente projetos de qualidade e ponto.

Enquanto não se afinam as bússolas...

Cabe a nós como profissionais buscarmos a reflexão para melhor entender e respeitar o trabalho que os outros executam à nossa volta. Esse respeito oferecido talvez seja o primeiro passo para o respeito recebido, e a consequente valorização do trabalho de todos.

Trata-se de um exercício de empatia, que pode um dia se espalhar como um meme positivo para que as pessoas passem a conviver de uma melhor maneira, deixando de somente competir para colaborar entre si. Talvez esse dia chegue, e os usuários deixem de pagar o pato por conta das disputas dos outros.

Até o próximo!

Comentários:
Acredito que este preconceito com outras disciplinas tem sua origem no meio acadêmico.

Vejo os acadêmicos da Computação dizendo que [qualquer outra área que não seja programação] não é trabalho, cujos profissionais são inúteis. Alguns REALMENTE acham que uma equipe de programadores pode construir um sistema, de qualquer tipo, útil e comercialmente rentável sem ajuda de outros profissionais.
 
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