Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
Nessa vida compartilhada entre Agências Interativas e Fábricas de Software, tive a oportunidade de fazer alguns bons amigos nesses dois mundos que inexplicavelmente não conversam bem. Talvez nem sejam mundos distintos, mas somente visões de um mesmo mundo que está aí para a gente tocar para frente.
Sempre senti carência dessa amarração. Antes eu pensava que ela deveria acontecer fundamentalmente pela obrigação do meio.
Eu supunha que nós estávamos em via digital, ou o
digimundo, como gosta de dizer o
René. Dependíamos dessa interdisciplinaridade para melhor aproveitar as novas mídias. As pessoas deviam se aturar por conta disso. Conviver com quem pensa diferente é necessário. A utopia do tênis Puma e do sapato Fazcar no mesmo piso. Mac OS e Linux na mesma rede. Gravatas e camisetas na mesma mesa de almoço. Essa era a liga da massa na minha cabeça. Se não fossem as características técnicas do meio, essas pessoas de formação distinta poderiam trabalhar em lugares diferentes.
Hoje em dia, esse raciocínio desmontou um pouquinho. Um ponto fundamental em relação ao meio é que não consigo mais ver a linha que separa as coisas: Digital ou não-digital deixou de ser um atributo importante. O tão falado conceito de presença digital já tá soando meio esquisito. Sei-lá-o-quê Digital ou Escambau-sobre-IP começa a virar redundância. Até a Inclusão Digital deve passar primeiro pela Inclusão Social para não botar o carro na frente dos bois.
Digital é lugar comum. É a impressão do seu dedão na carteira de identidade. Tem uma hora que o "chuveiro elétrico" passa a ser chamado somente de "chuveiro" mesmo. Já sou pai de família, mas não quero soar cafona. Já basta a minha queda pelo análogo-valvulado. Tenho até pick-up montada e discos de vinil para sair do universo "Shuffle" de vez em quando.
Pau na liga!Se não é o meio digital, que diabos deve unir o mundo da abordagem humanista com o da abordagem tecnicista? Qual o motivo de todo mundo sentir essa necessidade, mas pouca gente se mobilizar para fazer isso acontecer?
Que dia vou poder ver acontecer um projeto de porte ter excelência em comunicação, estratégia, design, arquitetura da informação, conteúdo, desenvolvimento, implantação, escalabilidade, robustez, usabilidade, acessibilidade, acompanhamento, manutenção, produção, veiculação, integração, mobilidade, personalização, gestão do projeto, gestão de métricas, gestão do conhecimento e um alto retorno de valor pelo investimento feito?
Esse projeto é impossível de ser feito em uma Agência de qualquer tipo. E também não dá para fazer em uma Fábrica de Software. Por mais que os Atendimentos e Diretores Comerciais desejem. Por mais que os clientes esperem isso.
De cada um dos mundos devia se buscar o melhor!Não consigo conceber processos, métodos, componentes, ciclos de vida, ITILs, CMMIs e ISOs com a visão tecnocêntrica de quem acha que isso é suficiente para se fazer um produto de qualidade em todas as dimensões que essa palavra pode ter.
Da mesma forma, não vejo sentido em planejamento estratégico, mobilidade, advertising, marketing viral, SEO, Banners, mídia, Leões, GrandPrixes, Hotsites, Hotpages e Hotdogs se o sujeito tenta emplacar tudo isso gastando todo seu PowerPoint, mas não tem gente e estrutura com competência para conduzir os projetos no mundo real.
Não adianta ter só carroceria. O carro tem que ter motor para andar na velocidade que você quer. E um carro pode ter o motor que tiver, mas se não tiver conforto e beleza, acaba ficando menos atraente.
Mudanças em segmentos – Transformações nas AgênciasUm tempo atrás as Agências acordaram quanto aos problemas da divisão do mundo entre Agências de internet e Agências de publicidade tradicionais.
A agência Africa, de presença tradicional, está trabalhando a integração entre meios e planeja concorrer a Cannes no ano que vem, na categoria Cyber, uma categoria de internet.
A AgênciaClick, pelo seu
Manifesto da Interatividade, se posiciona nem como agência on-line ou off-line. Quer ser uma agência da interatividade. E deve querer concorrer com as agências tradicionais, se for o caso.
Mudanças em segmentos – Transformações nas Fábricas de SoftwareAs Fábricas começam a atentar para um movimento de colocação do usuário em primeiro plano, pela primeira vez na história do desenvolvimento de software comercial.
A CTIS, uma empresa de tecnologia, trabalha internamente com um Núcleo de Experiência do Usuário inserido dentro da Fábrica. Esse núcleo multidisciplinar concilia esses dois mundos e quebra a estrutura tecnicista e ferramental que sempre orientou os projetos de software.
Ela provavelmente não está sozinha. Na era do navegador como cliente definitivo, as Fábricas hoje inserem em seus quadros profissionais de Arquitetura de Informação, Designers, Integradores e especialistas em usabilidade para se moverem do paradigma orientado ao cliente para o centrado nos usuários.
Para negócios como portais corporativos, soluções colaborativas e portais de conteúdo, as Fábricas já podem batalhar com as Agências pela preferência dos clientes. E talvez esse leque de produtos podendo ser construídos pelos dois segmentos cresça muito nos próximos anos.
Enquanto isso...Na ciranda das abordagens, talvez a melhor coisa seja abrir o coração para escutar idéias diferentes do que a gente está acostumado a ouvir. Enquanto
Ali Kamel diz que não somos uma nação bicolor, eu tento dizer (com menos propriedade e em assunto de menos importância) que não podemos ser uma nação de Agências e Fábricas. Temos que ser centros de excelência para os nossos usuários. A estrutura para conseguir isso deve ser formada para que esse objetivo se realize.
Mais uma coisa:Nos próximos textos, sairei do samba-de-uma-nota-só das Fábricas e Agências para voltar para as séries mais técnicas. Muito obrigado a todos pelos acessos ao site. Fico muito grato e motivado para continuar escrevendo com o retorno de vocês. =) Abraços...