Multiplexado

Reflexões de um tecnólogo humanista no mundo da produção de conteúdo e propaganda interativos. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Terça-feira, Maio 08, 2007

 

Acessibilidade, civilidade e projetos que induzem a erros


Durante todo o primeiro e segundo graus (hoje nível médio), estudei em uma escola que tinha amplas áreas verdes conjugadas com muitos espaços de grama verdinha e muito bem cuidada. Aprendi muito cedo que não devíamos pisar na grama.

No começo, era porque não podia e pronto. Mas na 5a Série, o professor de Práticas Agrícolas explicou que não se devia fazer isso devido ao peso do nosso corpo pode compactar o solo, dificultando a fixação das raízes da planta. Isso explicava a criação de "caminhos" ou "trilhas" na parte do gramado onde as pessoas passam com frequência. As trilhas eram o solo compactado, que precisava de ser revolvido, tratado e replantado para a reversão do problema.

Imagem de um jogo de futebol feminino onde pode-se ver a região próxima as traves totalmente pisada pelo posicionamento constante de goleiros naquela região do campo.

Essas coisas ensinadas tão cedo me geraram um enorme compromisso de não pisar na grama. A essa sensação, alguns dão o nome de civilidade - segundo a wikipédia, nada mais é do que o respeito pelas normas de convívio entre os membros duma sociedade.

Qual a relação disso com a acessibilidade?

Hoje cedo fui levar meu filho Mateus no pediatra e me deparei com um prédio em condições deploráveis de acesso. E meu filho, enquanto criança de colo, nos coloca em uma condição legítima de Acessibilidade e prioridade de tratamento, inclusive prevista no Decreto 5.296, de 2/12/2004.

Imagem do prédio onde fica o consultório pediátrico que atende meu filho. Pela imagem, é possível observar que as pessoas não utilizam o caminho previsto nas calçadas, e sim, pegam atalhos pela grama.

O projeto do prédio começa com o estacionamento muito distante da entrada sem algum motivo aparente. Passa por uma calçada maluca que praticamente dobra o trajeto que você precisa fazer. E ainda abriga em seus andares um grande número de clínicas médicas e laboratórios especializados que atendem todo tipo de público, inclusive as pessoas com mobilidade reduzida.

E qual a relação disso com a civilidade?

Me senti no direito legítimo de pisar na grama hoje. Me deparei com a trilha alternativa, compactada e presente no local. Ela que denunciava que aquele era um caminho de fato utilizado pela maioria das pessoas. Pode parecer um fato sem importância, mas quebrei um tabú pessoal de décadas. Tomei uma decisão baseada em muitos princípios de responsabilidade de projeto que a gente usa no trabalho, no raciocínio da Experiência do Usuário.

Não foram poucos os autores que me influenciaram a pensar que os projetistas devem assumir as consequências de seus erros de projeto que induzam as pessoas a agirem de maneira errada. A cada passo dado em cima da grama, pensava estar pisando nas costas da mão do arquiteto que priorizou a estética de uma fachada imponente em detrimento de uma boa acessibilidade. Sentia que estava ali perdendo um pouquinho da minha civilidade, com um leve requinte de crueldade, por causa desse arquiteto que eu nem conheço.

Nesse senso de responsabilidade, cabe um questionamento interno se os nossos usuários não estão fazendo coisas erradas nos sites e softwares que projetamos por nossa culpa, vaidade ou omissão. =) Um abraço e até breve!

Comentários:
Você não estava fazendo algo errado, pois o que é certo e errado é relativo à situação.

O problema é que os designers e arquitetos acham que podem controlar a situação através de regras que são enforçadas pelos artefatos que eles delineiam.

Se tratassem a situação como prioridade em relação às regras, então teríamos um sistema mais adequado e flexível.

Imagine se não houvesse calçada alguma, só grama. Com o passar do tempo, as pessoas decidiriam qual seriam os caminhos de acesso mais comuns. Tudo bem que ficaria meio enlameado quando chovesse, mas seria mais adequado.

Outras elocubrações sobre tecnologia e caminhos em espaços públicos:

http://usabilidoido.com.br/o_caminho_mais_belo_e_o_mais_rapido.html
 
É interessante pensar que enquanto que na vida real, usar um caminho alternativo pode ser considerado errado, como pisar na grama, ou até mesmo as vezes perigoso como pegar um atalho, na Internet, isso ocorre de forma diferente.

Um site que apresenta caminhos alternativos para se alcançar um mesmo destino é considerado melhor do que aquele que não os apresenta.

Pessoas pensam de forma diferente e conhecem caminhos diferentes.

É também interessante pensar que muitas das vezes, na internet nós nem sequer pensamos no caminho projetado pelo desenvolvedor para se alcançar um caminho.

-O botão de voltar do navegador por exemplo é um recurso muito mais utilizado do que o botão de voltar de um site (pois temos que pensar para encontrá-lo).
-As vezes eu nem procuro o botão de HOME pra voltar pra página principal. Eu simplismente digito o endereço novamente.

Como na vida real isso não é possível, todos os caminhos e instalações devem ser muito bem planejados para fazer com que o usuário[pedestre(rs!)] tenha que pensar e se desgastar o mínimo possível e para se locomover
 
Oi Fred! Muito bacana o post que você colocou =). Quando conversava com meu amigo Wellington Saamrin sobre o assunto, ele me disse que na época de faculdade tinha um professor que dizia que os caminhos deviam ser pavimentados somente depois de definidos pelas pessoas (após uso).

Pablo, eu gostei também dessa observação pequenas subversões ou pisadas de grama de navegação que a gente acaba fazendo (tipo essa coisa de digitar o endereço de novo para voltar para a home). Tem outras também: Tamo tão acostumado a não confiar no botão de "back" que a gente acaba nem usando (rs). Abraços...
 
Entender este texto significa entender um pouco do nosso trabalho. Afinal, o que fazemos não é simplismente para gastar mais horas no desenvolvimento de interfaces dos nossos clientes e justificar altos custos.

Mais tempo dedicado ao design de interfaces voltadas ao usuário significa tornar a experiência de uso das interfaces mais agradável, aumentando o tempo de permanência, indicação e resultados obtidos com o site.

Isso significa fazer valer o investimento maior.
 
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