Reflexões de um tecnólogo humanista no mundo da produção de conteúdo e propaganda interativos. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
Durante todo o primeiro e segundo graus (hoje
nível médio), estudei em uma escola que tinha amplas áreas verdes conjugadas com muitos espaços de grama verdinha e muito bem cuidada. Aprendi muito cedo que não devíamos pisar na grama.
No começo, era porque não podia e pronto. Mas na 5
a Série, o professor de Práticas Agrícolas explicou que não se devia fazer isso devido ao peso do nosso corpo pode compactar o solo, dificultando a fixação das raízes da planta. Isso explicava a criação de "caminhos" ou "trilhas" na parte do gramado onde as pessoas passam com frequência. As trilhas eram o solo compactado, que precisava de ser revolvido, tratado e replantado para a reversão do problema.

Essas coisas ensinadas tão cedo me geraram um enorme compromisso de
não pisar na grama. A essa sensação, alguns dão o nome de
civilidade - segundo a wikipédia, nada mais é do que o respeito pelas normas de convívio entre os membros duma sociedade.
Qual a relação disso com a acessibilidade?Hoje cedo fui levar meu filho Mateus no pediatra e me deparei com um prédio em condições deploráveis de acesso. E meu filho, enquanto criança de colo, nos coloca em uma condição legítima de Acessibilidade e prioridade de tratamento, inclusive prevista no
Decreto 5.296, de 2/12/2004.

O projeto do prédio começa com o estacionamento muito distante da entrada sem algum motivo aparente. Passa por uma calçada maluca que praticamente dobra o trajeto que você precisa fazer. E ainda abriga em seus andares um grande número de clínicas médicas e laboratórios especializados que atendem todo tipo de público, inclusive as pessoas com mobilidade reduzida.
E qual a relação disso com a civilidade?Me senti no direito legítimo de pisar na grama hoje. Me deparei com a trilha alternativa, compactada e presente no local. Ela que denunciava que aquele era um caminho de fato utilizado pela maioria das pessoas. Pode parecer um fato sem importância, mas quebrei um tabú pessoal de décadas. Tomei uma decisão baseada em muitos princípios de responsabilidade de projeto que a gente usa no trabalho, no raciocínio da Experiência do Usuário.
Não foram poucos os autores que me influenciaram a pensar que os projetistas devem assumir as consequências de seus erros de projeto que induzam as pessoas a agirem de maneira errada. A cada passo dado em cima da grama, pensava estar pisando nas costas da mão do arquiteto que priorizou a estética de uma fachada imponente em detrimento de uma boa acessibilidade. Sentia que estava ali perdendo um pouquinho da minha civilidade, com um leve requinte de crueldade, por causa desse arquiteto que eu nem conheço.
Nesse senso de responsabilidade, cabe um questionamento interno se os nossos usuários não estão fazendo coisas erradas nos sites e softwares que projetamos por nossa culpa, vaidade ou omissão. =) Um abraço e até breve!