Multiplexado

Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Quinta-feira, Setembro 20, 2007

 

Algo sobre a mecânica dos frilas e a vida do freelancer de UX


Peço licença aos leitores para discorrer sobre algumas coisas a respeito de uma das formas que somos contratados para executar nossas atividades profissionais: o famoso frila.

Apenas vou anotar aqui alguns aspectos que tenho conversado com amigos sobre as decisões conscientes ou inconscientes que devem ser tomadas no "start" de um frila. Mais uma vez esse espaço está propondo apenas uma reflexão sobre o assunto, com muita carga de opinião e sem nenhuma pretensão de definir nada.

Sem estatísticas inventadas

Não tenho números para dizer nada, mas acredito que a frilação responde por uma fatia não-desprezível do volume de serviços do nosso mercado. Tentarei construir um raciocínio que leva em consideração a "Frilosfera" e os seus principais agentes: Clientes, Contratantes, Parceiros e o Freela propriamente dito.

Glossário interno

Freela (leia-se frêêla): Sujeito que faz o frila (freelancer).
Frila (leia-se frííla): O trampo ou serviço executado pelo Freela.

Vamos começar falando um pouco sobre o tal do GIRO: a mola mestra da frilação - a gênese de todo trampo de frila que pipoca no mundo.

Aspectos de negócio - O Giro

Tem uma coisa na atividade empresarial que a gente chama de "giro". Ele engloba os valores necessários para a manutenção da empresa a cada mês. No setor de serviços, podemos considerar bem a grosso modo o giro sendo a quantidade de grana que precisa ser faturada para pagar as contas, salários das pessoas e quitar os impostos da empresa.

As pessoas costumam dizer que precisam de tantos mil reais para girar a empresa tal. Isso quer dizer, que todos os meses ou na média de um período, deve-se faturar pelo menos esse tanto a cada mês para a empresa não entrar no vermelho. O que você fatura além do giro é o seu lucro líquido, ou seu azul.

Que diabos isso tem a ver com os freelas?

Estou falando sobre essas coisas porque acredito que lidar com o giro é um dos fatores fundamentais que levam as empresas a frilarem trabalhos. Alguns segmentos de negócio que demandam atividades de Experiência do Usuário podem não conseguir "girar" a quantidade de colocações fixas versus volume de trabalhos tempestivos que precisam ser feitos nos projetos.

Tentando pincelar com exemplos, se você necessita de ilustrações profissionais de vez em quando, pode ser viável frilar um ilustrador pontualmente, quando esse contexto ocorrer. Talvez não seja muito inteligente manter pessoas em postos de trabalho à espera demandas trasitórias.

O giro é um dos problemas mais sérios da operação de empresas do nosso segmento. A nossa atividade depende muito de capital intelectual para conclusão dos trabalhos, com exigência de gente qualificada. Mesmo empresas de porte pequeno possuem folhas de pagamento relativamente salgadas. Se você não paga um salário competitivo, não consegue manter um bom profissional na estrutura por muito tempo.

Mais exemplos: Não custa barato manter uma vaga fixa de "Arquiteto da Informação Pleno", que é a vaga média do nosso mercado. As despesas com esse Arquiteto serão fixas para a empresa: todo mês o sujeito receberá salário e benefícios, e todo ano férias e décimo terceiro.

Já a receita que a empresa recebe em decorrência do trabalho do Arquiteto é absolutamente variável, dependendo de fatores internos e externos que eu não conseguiria enumerar. Mesmo assim, numa visão de "microcosmo" vou arriscar dizer alguns fatores para manutenção dessa vaga:

a) O Arquiteto ter uma boa visada produtiva (não ficar "sem job").
b) O Arquiteto trabalhar uma quantidade de horas próximas das horas vendidas para o Cliente. Ele absolutamente não pode trabalhar mais do que foi vendido. Se isso acontecer, o lucro do projeto vai pro saco.

Para dar sequência a esse raciocínio, vou colocar três modelos de trabalho até chegar no modelo de freela:

a) Modelo tradicional - Cliente => Contratante => Colaborador

Nesse modelo, o Contratante possui funcionários (Colaboradores) que executam um determinado serviço vendido a um Cliente. No modelo tradicional, a parte mais pesada do "giro" fica com o Contratante.

Normalmente o Cliente paga por um serviço a ser executado em um prazo estabelecido. Se o Contratante executa no prazo combinado, tudo beleza. Mas se ele começa a atrasar, a margem de lucro do Contratante vai reduzindo até que o projeto entre em prejuízo.

O Contratante nesse modelo vive em conflito de gerenciar uma receita variável (pagamento do Cliente) com uma despesa fixa (pagamento de salário ao Colaborador).

Para que esse modelo funcione, o Contratante deve operar redondinho para conseguir fazer os projetos terem uma boa margem de lucro. Apesar dos esforços de todos, essa situação de prejuízo é muito comum no mercado.

b) Modelo de parceria (Subcontratação ou Quarterização) - Cliente => Contratante => Parceiro

Isso aí é uma forma do Contratante transferir para um Parceiro (empresa contratada por ele) o ônus do giro de equipe. Ele só paga o Parceiro quando receber do Cliente.

O Parceiro, por sua vez, para não ficar no "prejú" vai tentar se proteger e cumprir o escopo o mais rápido possível, caso contrário, sua margem de lucro vai para o buraco rápido. Vai ter gente no Parceiro pra "tensionar" o Contratante tão logo as atividades estejam concluídas para pegar o aceite do projeto e solicitar recebimento da remuneração combinada.

Algumas empresas do mercado estão adotando esse tipo de abordagem para trabalhos de especialização notória. Produtoras e alguns estúdios trabalham assim.

Vamos supor que dentro do Contratante alguém decida que seja legal produzir um "game" dentro de uma campanha. Se o contratante não possuir gente especializada nisso, pode ir atrás de um Parceiro qualificado pra desenvolver essa parte do projeto.

O Parceiro precisa ter um fluxo de caixa excepcional para conseguir girar os projetos. Um Parceiro descapitalizado sobrevive muito menos do que o Contratante na mesma condição. O Parceiro está num "nível trófico" com menos "energia" disponível, então precisa se desenvolver muito para conseguir sobreviver com saúde.

c) Modelo frilado - Cliente=> Contratante => Freela

Demos uma volta infernal para finalmente chegar no ponto. Muita gente não observa isso, mas é nesse viés que as desventuras do giro são transferidas para o profissional de freela.

O dinheiro do frila passa a ser receita variável para o executante, por mais que digam o contrário. Tem gente maluca que faz planejamento com dinheiro de frila antes de receber: eu acho que isso é muito complicado. Depende entre outras coisas da construção de um relacionamento de cumplicidade entre os Freelas e Contratantes, coisa que não acontece da noite para o dia.

Esse relacionamento entre Contratantes e Freelas é essencial para as duas partes. O Contratante se livra do giro mas assume alguns riscos ao adotar a abordagem de frilar um job. Sempre existe o risco do Freela "dar um perdido" (evaporar), atrasar entregas ou simplesmente ser incompetente pra fazer o que foi combinado. Como acordar prazos com Clientes se a pessoa que está fazendo com você não for absolutamente confiável?

Conheço casos de freelas que "dão sumiço" sem entregar nada, e também de contratantes que recebem produtos e dão calotes nos freelas. Tenho certeza que você também já acompanhou esse tipo de coisa.

Depois dos modelos, algumas visões.

Um bom freelancer não precisa somente das competências técnicas inerentes ao seu serviço. Tem que ficar antenado para desenvolver habilidades financeiras, para que sua atividade seja rentável e a grana arrecadada nesse esforço recompense o volume de labuta e as eventuais dores de cabeça. Nunca se deve equiparar o valor de hora tranquila que receba em um trampo convencional com o valor de hora mais conturbado do Freela.

O freela precisa ter também um mínimo de noções sobre gerenciamento de projetos para saber delimitar o seu escopo e definir junto ao Contratante EXATAMENTE qual será o objeto de suas entregas, os respectivos prazos e as datas da grana cair na conta.

Na perspectiva do Contratante, demorar para entregar um projeto pode ser apenas adiamento de receita, que é uma coisa menos grave e diferente de prejuízo. Prejú mesmo só toma quem arca com o giro, que nesse caso é o Freela que vai levar, trabalhando além da conta.

Transferência de calote: Isso é correto?

Tenho outra visão pessoal de que a relação combinada e estabelecida é entre o Frila e o Contratante. Se o Cliente não pagar o projeto e isso não for culpa do Freela (é importante frisar), o Contratante não deverá repassar o calote. O Freela fecha negócio é com o Contratante, e esse deve arcar com as responsabilidades inerentes a demandar serviços para terceiros (ou quartos e quintos dependendo do caso).

Muita gente não combina isso no início dos projetos. Todas as vezes que eu ia fazer freelas, amarrava com meu Contratante que a condição de pagamento era o serviço concluído e aceito. Se o produto está homologado, é problema de quem contrata se o Cliente resolver não pagar.

A mensagem que eu passava é de "Quando eu alcançar o escopo, receberei o dinheiro. Organize o seu caixa pra isso." Se o Contratante não topava o modelo eu declinava. Se a intenção do Contratante é de "dividir riscos", esse intuito não deve ficar velado. Assumir risco desse tipo é como transar sem camisinha. A camisinha, nesse caso, é um contrato assinado em duas vias amarrando a situação (ambos podem ser protegidos por esse tipo de instrumento).

Fechando a ladainha...

Os Freelas podem ser uma boa maneira de melhorar as suas contas. Mas para que não virem um pesadelo, é bom estar de olho nas coisas faladas aqui e em algumas mais que eu não lembrei ou que não dá para colocar aqui porque o texto já está grande.

Pode ser melhor passar mais tempo com a família do que pegar um "projeto seqüestro" para comer a sua vida a troco de pouco ou de nada. Se formos fazer, que combinemos direitinho antes. O frila deve ser bom para todas as partes envolvidas.

Discordou? Comente =). Até logo!

Comentários:
O artigo ressalta que o giro é o custo de uma pessoa para fazer um trabalho (pelo menos uma parte) e nas várias situações exploradas eu vejo que a melhor do free-lancer se poupar de preju é ter combinado as condições de recebimento. O grande problema vem bem antes. As pessoas são capacitadas a executar produtos e serviços, mas não recebem instrução em como valorar ao próprio trabalho e técnicas de negociação. Eles estão sendo a ponta mais fraca da negociação. O cliente e o contratante estão carecas de saber como negociar a seu favor e sabem que podem transferir o ônus de todo o trabalho para o próximo elemento da cadeia
 
Fala Nandico

Aqui é o Alexandre, que encheu o saco para você atualizar mais o blog...rs

Prazer em conhece-lo e espero reve-lo ai no ano que vem em algum evento.

De preferencia o WAIU mesmo...rs

Abraçoss
 
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