Multiplexado

Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Segunda-feira, Novembro 19, 2007

 

Desgastaram o "foco no usuário"... Mas não propuseram nada para o lugar.


Senhoras e senhores, venho aproveitar que passei a noite em claro trabalhando e agora aguardo o dia amanhecer para ir trabalhar mais ainda. Faço assim porque se dormir essa hora, não acordo mais. Venho falar sobre um assunto que tenho acompanhado em algumas listas de discussão: uma crescente rejeição ao lugar comum da expressão "foco no usuário".

Acho que se fizer uma pesquisa aqui nesses dois anos de blog sobre esse termo e suas variações, elas estarão presentes em todas as páginas. Fiquei pensando sobre a possibilidade de estar sendo apenas mais um "chavãozeiro", principalmente depois de ler alguns argumentos bêm consistentes contra o meu até então inabalável edifício mental do pensamento user-centered.

Na contramão da nova tendência, decidi que esse mantra permanecerá na minha cabeça com apenas uma adaptação: é foco na pessoa, pois fica um pouquinho mais humanizado.

Depois de uma temporada trabalhando para fábricas de software, essa adaptação me ajudava a resolver um problema de entendimento no contexto de TI, onde usuário pode significar tanto usuário final, quanto cliente, quanto quase todo tipo de stakeholder que você converse. As vezes eu emendava um "pessoa utilizadora" na tentativa de deixar as coisas mais claras. Essa é uma mera adaptação é de uso pessoal, sem pretensão de nada, mas que coube na época.

As mini-decisões de projeto - é disso que eles são feitos.

Não sei como o mercado lida com isso, mas o "mantra" absorvido pela mente me ajuda em todas as mini-decisões que preciso tomar durante o exercício do nosso trabalho. Eu acho que é dessas mini-decisões que os produtos são feitos. Não lidamos com materia prima física, e sim com produção intelectual. Em todas as pequenas encruzilhadas, podemos avaliar entre os caminhos disponíveis como primeiro critério o caminho que intuirmos que seja melhor para as pessoas utilizadoras do produto, mesmo que esse caminho não seja o mais fácil (e quase sempre não é).

Nesse processo granular, quanto mais conseguimos acertar, maior a nossa chance de termos ou mantermos um bom produto. Penso que a maioria dos projetos notáveis são um somatório de pequenas virtudes, frutos de pequenas decisões, criações e construções centradas em gente que usa.

Se o "mantra" do foco no usuário me ajuda a alcançar isso, só irei desconstruí-lo quando aparecer alguma idéia que me ajude mais. Isso aqui não é uma defesa do termo. É uma demonstração de utilidade pessoal para uma idéia aparentemente desgastada. Ninguém levou em conta que esse desgaste pode ser muito mais problema de uso fanfarrão do que com a idéia propriamente dita.

O mantra é um lembrete constante para meu exercício continuado de empatia. Então, na minha cabeça (pelo menos, por enquanto) ele segue soberano.

Abraços a todos!

Comentários:
Eu li coisas sobre isso em uma lista que participo (tu participa lá também). Eu também discordo da idéia.

Sinceramente, num momento onde as ações caminham junto com a tão falada 'web 2.0' onde "o usuário é consumidor e, principalmente, autor de conteúdo", descartar a visão de entender e projetar pra públicos específicos (e cada vez mais espalhados e misturados em tribos e nichos) é dar um tiro no pé e um passo pra trás.

Tudo bem que a expressão esteja sendo desgastada de tanto empregarem, mas, será que não era isso que queríamos? Que todos falassem do 'projeto centrado no usuário', que todos soubessem o que é isso, como fazer e seus benefícios?

Talvez tenhamos pecado em difundir um 'conhecimento' que nem todos ainda temos ou sabemos com clareza, deixando a expressão se perder em bocas que não falam nada-com-nada.

Como já dizia Jakob Nielsen: "users are not designers" e vice-versa.

Engraçado que esse post tem a ver com aquele anterior, onde conversávamos sobre a postura das equipes nos jobs. Ter o foco no usuário não é uma exclusividade do designer/projetista/AI, mas de TODA a equipe de projeto e se ainda brigamos por isso, vamos baixar a guarda agora e nos render?

Não né.
:-)
 
Nandico, concordo em gênero, número e grau. UCD parece estar "batido" para aqueles que realmente não o praticam. Muita gente está chegando a área, e faz parte do comportamento humano contestar, o que não tem acontecido é contestações inteligentes, com propostas novas e válidas. Até lá, UCD continua sendo o meu mantra também!
 
Eu já fiz muito "design centrado no usuário", mas não parei aí. Descobri que existem muitos outros focos válidos, dependendo do projeto e da situação. Aqui estão alguns:

Foco no cliente
Foco no sistema
Foco no comportamento
Foco na atividade
Foco na tarefa
Foco na operação

Nesse post descrevo em detalhes os pontos fortes e fracos de cada uma dessas abordagens:
http://usabilidoido.com.br/design_centrado_em_que.html

Recentemente tenho tentado trabalhar com o foco na comunidade. Ao invés de dizer às pessoas o melhor jeito de se fazer algo, eu ajudo elas a descobrir por conta própria. Proponho projetos participativos ao invés de implementar tecnologias.
 
Oi Nandico,

Em parte, eu concordo com essa rejeição do "foco no usuário", as vezes, até mesmo contrapondo essa abordagem com UCD.

Desenvolvendo o raciocínio...

UCD prega coletar informações (em campo ou em laboratório ou em documentação - indiretamente ou diretamente) sobre os usuários, suas tarefas e os contextos em que são realizadas, para embasar o projeto. Já o "foco no usuário" parece enfatizar apenas no "usuário médio" ou no "usuário leigo", aquele indivíduo que não existe, a não ser na cabeça do designer das agências, que tem que entregar o projeto pra ontem. É projetar de forma empática, se colocando no lugar do usuário, mas sem nem saber que ele é, o que está fazendo e seu ambiente.

Na abordagem UCD, a usabilidade de um produto é entendida de forma contingencial, ou seja, depende dos fatores usuários, tarefas e contexto, para aí, estabelecer as metas de usabilidade (eficácia, eficiência, satisfação etc. - dentro do contexto do usuário realizando a tarefa) e assim, poder avaliar o design.

Já na abordagem "foco no usuário", quando se fala em usabilidade, entende-se simplesmente como uma facilidade de uso genérica. Avaliar a interface desse modo, é puro achismo, e por isso, tantos blogs como "tá complicado", "não consegui" e por aí vai...

Acho que o "foco no usuário" é um início, mas o UCD é um avanço. =)

[]s!
 
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