Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
Tá bom, eu não sou bom "mancheteiro", muito menos sei como criar boas polêmicas. Vou externar uma
vontade futura aqui, e depois explicar o motivo:
desejo a morte do papel de especialista em usabilidade, do especialista em design da interação, do especialista em experiência do usuário e assim por diante.
Acredito que essa seja uma visão centrada na pessoa utilizadora, e não uma visão
umbigocêntrica. Enquanto a responsabilidade sobre a usabilidade de um produto pairar sobre um papel periférico nas empresas que adotam esse tipo de postura,
um produto final dificilmente irá persistir as características de usabilidade que forem boladas pela cabeça desse papel.
Enquanto não houver...
- Atendimentos ou áreas comerciais que entendam e respeitem usabilidade;
- Gerentes de projeto que entendam e respeitem usabilidade;
- Analistas, engenheiros, programadores, testadores que entendam e respeitem usabilidade;
- Diretores de Criação, de Arte, Designers e Arquitetos da informação que entendam e respeitem usabilidade;
...não haverá usabilidade de fato,
a não ser em pequenas empresas, pequenos projetos ou pequenas equipes.
Resumindo mais ainda: Basta um
dedo marrom de algum membro da equipe depois que o trabalho do "usability guy" terminou para arruinar a experiência de uso de um projeto. As vezes é o cliente que pede pra cortar um artefato e alguém lá de cima que deixa. As vezes é um programador que reutilizou um componente tosco sei lá do que, e
acochambra ele na interface. Os riscos de sair algo diferente do planejado no final são enormes.
Atenção: o parágrafo a seguir contém um trocadilho infame.Em empresas com esse tipo de abordagem,
a responsabilidade sobre a usabilidade deve ser de todos. Tem gente que acha que tá isento de se preocupar com isso só porque tem um Arquiteto da Informação, por exemplo. Eu acho que o caminho não é bem por
AI.
Daqui pra frente, não tem mais trocadilho.Outras abordagens (outros já perceberam que o "cara da usabilidade" não funciona bem)...Algumas empresas gringas estão adotando o conceito de gerenciamento de produto (product management). Trocando em miúdos, é um sujeito geralmente proveniente da área de user experience que ganha mais poderes para poder cuidar do produto -
de verdade -, de maneira semelhante a que um gerente de projetos possui a responsabilidade de cuidar do projeto.
Tem um texto já até meio velho do Jeff Lash que fala sobre isso.
O gerente de projeto cuida de prazos, recursos e equipe (me recuso a colocar equipe como recurso, se alguém achar que tô sendo redundante). O gerente de produto cuida da estratégia do produto, e da persistência dessa estratégia do início ao fim do projeto. Tá com um olho na user experience/usuário final, e o outro olho no mercado e no possível de ser feito (aquela história de um olho no peixe, outro no gato).
O gerente de projeto tem poderes para tirar da equipe um cara que chega atrasado ou que não cumpre prazos, certo?
O gerente de produto consegue agir sobre um cara que avacalhe a qualidade do produto. Qualidade no sentido do senso comum - produto bacana - e não qualidade no sentido "industrial" - produto aderente à especificação técnica (blergh).
O engraçado é que, na época que eu estava flertando com o
PMBOK, o Torá do gerenciamento de projetos, lembro que no início do livro existe uma separação do que é gerenciamento de projeto e produto. O livro fala sobre as atividades de product management estarem fora do escopo dos GP's. Pena que o mercado brasileiro ignorou esse parágrafo do documento.
Tem até uma
vaga anunciada faz tempo para trabalhar no Google, em Belo Horizonte, de Product Management.
Não tô dizendo que essa história de gerenciamento de produto seja o "ovo de colombo", mas para mim é um indicativo de mercado que a história do "usability guy" pode estar com os dias contados. Cada empresa sabe onde seu sapato aperta, então é preciso ler coisas como esse próprio texto aqui de maneira cuidadosa para tirar o que serve para você.
É besteira tentar aplicar "na íntegra" as soluções dos outros. Cada empresa tem um ecossistema próprio. Tentar pegar metodologias dos outros ou achar que a sua metodologia serve para os outros é tecnicismo e miopia.
E quem trabalha com User Experience não se pode dar a preguiça de ser tecnicista.
Finalizando...Um abraço a todos, tava com saudades de vocês. Agora podem mandar as pedradas via comments. Ultimamente tenho tomado tanta que a carapaça tá ficando cada vez mais forte. ;)