Multiplexado

Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Quarta-feira, Novembro 07, 2007

 

A morte desejada do Especialista em Usabilidade.


Tá bom, eu não sou bom "mancheteiro", muito menos sei como criar boas polêmicas. Vou externar uma vontade futura aqui, e depois explicar o motivo: desejo a morte do papel de especialista em usabilidade, do especialista em design da interação, do especialista em experiência do usuário e assim por diante.

Acredito que essa seja uma visão centrada na pessoa utilizadora, e não uma visão umbigocêntrica. Enquanto a responsabilidade sobre a usabilidade de um produto pairar sobre um papel periférico nas empresas que adotam esse tipo de postura, um produto final dificilmente irá persistir as características de usabilidade que forem boladas pela cabeça desse papel.

Enquanto não houver...
...não haverá usabilidade de fato, a não ser em pequenas empresas, pequenos projetos ou pequenas equipes.

Resumindo mais ainda: Basta um dedo marrom de algum membro da equipe depois que o trabalho do "usability guy" terminou para arruinar a experiência de uso de um projeto. As vezes é o cliente que pede pra cortar um artefato e alguém lá de cima que deixa. As vezes é um programador que reutilizou um componente tosco sei lá do que, e acochambra ele na interface. Os riscos de sair algo diferente do planejado no final são enormes.

Atenção: o parágrafo a seguir contém um trocadilho infame.

Em empresas com esse tipo de abordagem, a responsabilidade sobre a usabilidade deve ser de todos. Tem gente que acha que tá isento de se preocupar com isso só porque tem um Arquiteto da Informação, por exemplo. Eu acho que o caminho não é bem por AI.

Daqui pra frente, não tem mais trocadilho.

Outras abordagens (outros já perceberam que o "cara da usabilidade" não funciona bem)...

Algumas empresas gringas estão adotando o conceito de gerenciamento de produto (product management). Trocando em miúdos, é um sujeito geralmente proveniente da área de user experience que ganha mais poderes para poder cuidar do produto - de verdade -, de maneira semelhante a que um gerente de projetos possui a responsabilidade de cuidar do projeto. Tem um texto já até meio velho do Jeff Lash que fala sobre isso.

O gerente de projeto cuida de prazos, recursos e equipe (me recuso a colocar equipe como recurso, se alguém achar que tô sendo redundante). O gerente de produto cuida da estratégia do produto, e da persistência dessa estratégia do início ao fim do projeto. Tá com um olho na user experience/usuário final, e o outro olho no mercado e no possível de ser feito (aquela história de um olho no peixe, outro no gato).

O gerente de projeto tem poderes para tirar da equipe um cara que chega atrasado ou que não cumpre prazos, certo? O gerente de produto consegue agir sobre um cara que avacalhe a qualidade do produto. Qualidade no sentido do senso comum - produto bacana - e não qualidade no sentido "industrial" - produto aderente à especificação técnica (blergh).

O engraçado é que, na época que eu estava flertando com o PMBOK, o Torá do gerenciamento de projetos, lembro que no início do livro existe uma separação do que é gerenciamento de projeto e produto. O livro fala sobre as atividades de product management estarem fora do escopo dos GP's. Pena que o mercado brasileiro ignorou esse parágrafo do documento.

Tem até uma vaga anunciada faz tempo para trabalhar no Google, em Belo Horizonte, de Product Management.

Não tô dizendo que essa história de gerenciamento de produto seja o "ovo de colombo", mas para mim é um indicativo de mercado que a história do "usability guy" pode estar com os dias contados. Cada empresa sabe onde seu sapato aperta, então é preciso ler coisas como esse próprio texto aqui de maneira cuidadosa para tirar o que serve para você.

É besteira tentar aplicar "na íntegra" as soluções dos outros. Cada empresa tem um ecossistema próprio. Tentar pegar metodologias dos outros ou achar que a sua metodologia serve para os outros é tecnicismo e miopia. E quem trabalha com User Experience não se pode dar a preguiça de ser tecnicista.

Finalizando...

Um abraço a todos, tava com saudades de vocês. Agora podem mandar as pedradas via comments. Ultimamente tenho tomado tanta que a carapaça tá ficando cada vez mais forte. ;)

Comentários:
Bom, sem você saber eu já estava pensando em uma coisa na mesma linha. Experiência do Usuário nos produtos deveria ser uma atitude a ser assumida por toda a equipe e não delegada apenas a um profissional que não condições de acompanhar todo o projeto. Quem acompanha o projeto no nosso mercado, o GP, não tem o jeito mágico do Steve Jobs para influenciar a equipe no sentido do produto criado para ser relevante na vida das pessoas. Ele está preocupado em rastrear os desvios e corrigí-los para garantir o lançamento do produto. Como usuário de Mac há muitos anos eu sinto uma discrepância na experiência de produtos que querem inovar e produtos que querem apenas preencher uma lacuna de mercado. Toda vez que a Sony lança um matador de iPod ela lança na verdade mais um produto com siglas de inventário. Como é que o produto XV-MH321 vai ser mais fácil de ser lembrado do que o iPod? Um dos poucos concorrentes que tem gabarito para ser um concorrente à altura do iPod é o Zune porque esse as pessoas lembram quando ele é citado.
 
"Tentar pegar metodologias dos outros ou achar que a sua metodologia serve para os outros é tecnicismo e miopia."

Ao meu ver, você "tocou bem na ferida".

Porque sempre querem tratar tudo, como se fossem a mesma coisa sempreeeee.

Eu já vejo que cada caso é um caso, e deve ser tratado diferente dentro de seus limites, e não deixar que os seus limites definam a rota ser seguida, mas sim o máximo onde elas podem chegar.
 
Bom artigo! Apesar de não concordar na integra com o que dizes, acho que tocaste nuns pontos bem interessantes.

Regra geral, alio a função de gestor de projecto à função de user experience designer. Por essa razão não tenho o mesmo "rancor" que tu à forma como assuntos que podemos definir de forma generalista como "boas práticas" profissionais são muitas vezes tratados em projectos Web.

Concordo que tem que haver um acompanhamento de todas as fases do projecto por alguém que garanta uma boa experiência de utilização de um produto ou serviço. Contudo, penso que isso é perfeitamente conciliável com a existência de profissionais especializados em determinadas áreas. Apenas é necessário que o gestor de projecto (especialista na nossa área ou não) saiba garantir um consciência constante de que a experiência de utilização é fulcral para o sucesso de um projecto.

Cabe-nos a nós adoptar uma "atitude pedagógica" e transmitir aos profissionais de outras áreas parte do conhecimento que temos e, se possível, envolvê-los directamente nas acções de user research. Não há nada melhor para aprender do que fazer...
 
Lindo, lindo lindo :)

Concordo plenamente, pegar metodologias e tentar aplicar assim não rola, ter uma equipe que não entende o que ´usabilidade e desarrumar a casa depois que o usabilidoido da vida arrumou... não rola...

Tem muita coisa errada realmente...
 
Olá Nandico,

Também concordo quando você falou que a usabilidade é responsabilidade e todos e não só do arquiteto de informação e design de interação, mesmo porque será você que vai usar o produto ou sistema amanhã.
 
você quer ficar escrevendo artigos da sua própria cabeça sem conhecer o mercado de trabalho e do que as empresas realmente precisa. Você desconhece as funções de um analista de usabilidade. Talvez o ideal, segundo sua hipotese, é renascer a era dos WebMaster, onde esse profissional se torna responsável por fazer tudo. Todos devem estar envolvidos com usabilidade? é óbvio, ninguém pode ser recriminado por sugerir melhoria no trabalho do outro mas isso que não funciona, as pessoas não ficam informalmente palpitando no trampo de marketing/AI/Design! Um faz-tudo está errado!
 
A sua opinião é muito válida. Pena que teve que fazer um ataque pessoal (fugindo do assunto). Falo de dentro do mercado, com mais de 10 anos trabalhando profissionalmente na área. Sua acusação é infundada. Mas não é esse o foco: queria te dar mais uma chance de desenvolver o teu raciocínio sem precisar de atacar ninguém =D. Pode atacar minhas idéias (não sou dono da razão), mas atacar minha pessoa sem ao menos me conhecer ou se apresentar é muito feio ;). Abraços...
 
Leandro, para quê esse ataque? Antes de mais nada isso é um blog e num blog as pessoas escrevem sobre o que quiserem. Eu não entendi. O assunto mais importante é sobre o quê os produtos precisam ter para atenderem os usuários realmente. E a falta de gente que pense nisso em todas as fases da cadeia de produção é que gera um desvio naquilo que os analistas de usabilidade, designers de interação planejaram. O seu comentário tá contra a maré do que os outros postaram. Eu acho que foi muito xiita. Acho que você não entendeu o espírito da mensagem...
 
Bem, o pior foi que o Lendro não entendeu o texto. Ele achou que vc falou de faz tudo, quando simplesmente vc falou o "pensamento" tem que ser um só. Na verdade sendo mais especifico o gol tem que ser o mesmo. É comum hoje na empresa, o marketing só querer vender mais ou ter um prêmio no portfolio dele pra conseguir um emprego melhor. O presidente cumprir as metas pra conseguir o bonus inchado, os gerentes de projetos ficarem balbuciando chavões e criando processos para parecer que estão trabalhando, quando no fundo o que se quer é foco único.

discordo só com uma coisa do Well : O Jobs não tem um jeito mágico. Ele é o chefe, e por isso a apple tem a veia de design e usabilidade. Ele impos isso e pelo sucesso progressivo dos produtos foi ganhando mais e mais poder. Quando o cabeça não pensa nisso o resto da empresa não vai pensar.

novamente nandico lembro de vc falando de como tenho sorte e reforço aqui : Cai num lugar, onde não se tinha a visão mas o chefe tinha cabeça aberta. Me deu uma chance. Ela foi feliz, e trouxe mais projetos focados no usuário e hoje, nesse mês fechamos a estrategia onde TODO o escritório terá o foco em criar grandes experiências. Mesmos os hackers de kernel. Mesmo os loucos do bluetooth. Os caras que nunca codificaram uma widget.

E qual foi minha surpresa, ao ver que gerentes seriam contratados (afinal estamos crescendo) e eles estão sendo entrevistados pelo time de design. Ou entendem a importância do foco dito ou estão fora.

É bom demais ver programador não reclamando mas pensando como vai implementar aquilo, criando ferramentas para tudo sair pixelperfect e principalmente não querendo enfiar componente. O que foi decidido mesmo que dobre o trabalho é respeitado. Mas claro não deixamos uma idéia milaborante simplesmente entrar. Justifique... se der vantagens reais ao usuário é bem vinda e será implementada.

Bem. No fim uma pena vc não está aqui em recife Nandis, no WUD apresentei gráficos, mostrando como o pensamento UX (se espalhou) e contaminou todo o escritório e isso resultou em grandes projetos. Ficar perdendo tempo tentando fazer as coisas não combina com projetos focados em usuário.

Abs
 
Como alguns aqui já disseram, não acho que o caminho que você apontou seja o melhor... É a mesma coisa que você disser que analistas de qualidades estão com dias contados, simplesmente porque todos os outros setores tem que já produzir com qualidade. Isso na teoria é LINDO, mas na prática não funciona. É o mesmo para a internet... não adianta você criar manuais, dar palestras e dizer que não haverá mais o profissional de usabilidade pois todos terão que produzir com esse pensamento, porque isso não vai funcionar! Sistema multi-disciplinar de produção é o que funciona e quanto mais foram especializadas as áreas, melhor... e com certeza os profissionais de usabilidade não serão instintos... espere e verá...
 
Acabar com o especialista em usabilidade? Mas ele nem começou a cumprir sua missão! Em quantos projetos vocês acham que alguém especializado em UX é envolvido? Cinco por cento, talvez? Isso se você só contar customer-facing, porque intranet no máximo ganha 8 horas de um web designer. Quanta gente com 20, 30 anos de projetos nunca teve nenhuma exposição aos conceitos básicos de usabilidade? E você acha que já está na hora de apedrejar os evangelistas?

Eu entendo que idealmente todos, principalmente o gerente responsável, saberiam o papel da usabilidade. Idealmente, nós também não precisaríamos de especialistas em middleware, segurança, e tuning de banco de dados, entre outros, porque os desenvolvedores se encarregariam de assumir essas tarefas. Na prática, se o projeto é crítico, esses profissionais vão ser chamados.
 
Wow.

Acho que, antes da morte dos especialistas em usabilidade, o que tu deseja mesmo é respeito ao trabalho que fazemos, por esses vários outros 'atores'.

Concordo e sou defensor do trabalho de equipes multidisciplinares, onde cada um exerce o seu papel em prol do mesmo objetivo (isso não impede a inclusão de um gerente de produto, mas não tira a necessidade de um especialista X em alguns casos). O que, invariavelmente acontece, é esse ruído entre entender o seu papel e principalmente, em saber qual o objetivo projetual. Aonde nós queremos (juntos e não cada-um-por-si) chegar?

Isso é uma coisa que presencio no dia-a-dia, e aqui na agência temos tentado mudar. Fazer com que as pessoas se sintam também 'donas' do projeto, não participem só nas suas etapas e - além de respeitarem e compreenderem o trabalho dos demais - se preocupem com a qualidade final do projeto. É isso que vai parar na mão do usuário.

São meus 2 cents. ;-)
 
Moises,

Acertou na bucha! A contribuição que você fez sintetiza bem o texto. A minha preocupação é voltada para aqueles que acreditam que "basta algum cara bom de usabilidade no meu projeto" para que fique tudo resolvido, e não é bem por aí. Eu acredito de coração que a usabilidade deve estar encruada em todas as pessoas que participem de um projeto, para que essas pessoas possam viabilizar que ela persista até o produto final, senão ela desaparece ao longo do projeto, por mais que a vontade do usability guy seja contrária a isso.

O que eu vejo acontecendo em geral é que, no contexto atual, ficamos sem ação contra um Diretor de Tecnologia, um Arquiteto de Software ou um Diretor de Criação menos sensibilizado, para escolher exemplos reais no mundo corporativo em dois segmentos que eu conheço relativamente bem (agências interativas e fábricas de software). Esses caras possuem em geral um poder maior na maioria das estruturas atuais, e a usabilidade é estraçalhada no grito em nome da fiabilidade ou de interesses departamentais (Poooooobre usuário, seu advogado foi dilacerado pelo interesse de um peixe maior).

Como o Gustavo sugeriu, o profissional de usabilidade pode conduzir essa "abordagem pedagógica", mediando um processo para que, como o Marcelo colocou, o "GOL" de todos seja o mesmo. A analogia perfeita tá nos comentários, e foi essa do Marcelo. Esse texto não era 10% do que é antes da contribuição de vocês. Valeu cada segundinho da hora que eu passei redigindo cada palavra (foi sem dúvida o post de edição mais rápida de todos os que tem aqui nesse site, verborrágico, de fato).

A única coisa que me deixou desapontado foi o fato de ninguém além do Marcelo ter pontuado a questão do product management que foi colocada na parte final do texto. O product management pode ser uma versão aprimorada do Analista de Usabilidade, só que com poder de direcionar o foco de todos dentro do projeto para o produto, e não para os gols "individuais" de cada membro da equipe. Em organizações modernas, em caso de legítima defesa dos usuários, um product manager peita um diretor de tecnologia, por exemplo. E ganha! (O advogado dos usuários sobe para Juiz dos usuários). Há!

Sobre o tom do texto

Não deixa de ser uma experiência interessante para mim colocar um título tão "Mancheteiro" mesmo, como eu mesmo sacaneei logo no início (primeiro parágrafo), já que imprensa e alguns colegas da blogosfera fazem uso desse recurso há muito tempo. Inclusive sites que eu gosto muito pela proposta editorial (como o Webinsider) fazem isso com certa frequência.

E pelos resultados, parece que deu certo: nunca antes um post desse blog teve tanto acesso em tão pouco tempo. É claro que não continuarei nessa linha, pois meu intuito é muito mais de tentar contribuir com a comunidade de alguma forma do que de "ganhar muitos acessos": este blog nem monetizado é.

É sim de um público pequeno, mas muito especial. Gente que só me admiro quando consigo entrar em contato (converso menos só porque a ferramenta blogger não me dá o e-mail de quem escreve aqui, só linka para aquel profile ridículo do blogger que muita gente nem preenche).

Leandro, Cesar e Marcos possuem visões que também deve ser respeitadas, e que eu já defendi ferrenhamente e talvez ainda volte a defender um dia. Dar o braço a torcer definitivamente é uma atitude user friendly, e eu não quero ser um sujeito ancorado nunca.

Inclusive, no último parágrafo, eu convidei a quem discorda botar a sua opinião. Todos os comentários foram liberados (até um que continha um ataque pessoal) e me fizeram refletir para melhorar as minhas idéias, ou até mesmo a melhor maneira de expô-las.

O que faz uma idéia ser grande é ela resistir a ataques. Ter gente pensando diferente é essencial para que eu não fique aqui entrincheirado defendendo um ponto de vista só "pra ganhar a discussão". Nesse tipo de disputa, ninguém "ganha". As palavras de todos tiveram o efeito imediato de me fazer refletir.

Para mim, está sendo bom. Espero que também esteja fera para vocês! =) Abraços...
 
Pô, fazia tempo que eu não lia um post tão provocativo e interessante...hehehe
Dias atrás eu estava pensando com meus botões em como é dificil manter as premissas de um projeto do inicio ao fim. Muito coisa que é cuidada e definida em uma etapa, se perde nas próximas. Já vi funcionalidades mudando complementamente depois da implementação pela equipe de HTML, codigos web standards serem dilacerados pelos programadores. Nada contra HTMlers e programadores e sim contra os ruídos e falta de uma figura como o gerente de produto. Essa figura não existe na agência em que trabalho hoje (a mesma do Moisés Ribeiro), mas estamos desenvolvendo a função de "analista de interface", que - apesar do nome - é próxima as atribuições do gerente de produto.
Talvez no futuro seja bem parecido com o que você disse no artigo.

Nandico, o visionário...rs

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Acredito na necessidade do especialista em usabilidade para projetos e soluções específicas, mas concordo que um gerente de produto resolveria boa parte dos problemas de usabilidade e de qualidade nos projetos.

Parabéns pelo artigo!
 
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