Reflexões de um humanista no mundo da produção de propaganda interativa. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
Segue definição que encontrei dentro do
Programa de Pós-Graduação em Artes da Unicamp:
"Produção Intelectual são realizações de própria autoria ou em parceria, dadas à publicação, que se materializam em forma bibliográfica (livros, capítulos de livros, artigos em periódicos ou anais...); técnica (apresentação de trabalho, organização de eventos, organizar e/ou ministrar cursos de curta duração, relatório de pesquisa...); artística/cultural (apresentação de obras artísticas, obra de arte visual, arranjo musical)."
Caberia encaixarmos as atividades de tecnologia da informação e seus principais papéis (programador, analista de sistemas, engenheiro de software, etc) como atividades de produção intelectual?
Pegando o conceito acima ao pé-da-letra, talvez não. E levando para o exercício de TI em Fábrica de Software muito menos ainda. Dentro de Fábrica, é certo que se procura a viabilidade de uma maior escala de produção. Isso passa necessariamente pela retirada da inteligência das pessoas e colocação dessa inteligência nos processos. Isso cria uma "casta" de pensadores - normalmente os
SEPG's (Software Engineering Process Groups) - e uma
Shudra de "fazedores" - as pessoas que, de fato, trabalham nos projetos de Fábrica e seguem os processos desenhados pelos
Brâmanes do software.
Partindo desse pressuposto, em ambientes tradicionais de TI, a produção intelectual está concentrada em um pequeno grupo. A maior parte das pessoas dentro do ambiente produtivo apenas executam tarefas pré-programadas. É claro que na execução dessas atividades as pessoas usam suas faculdades intelectuais. O que acredito é que essa hierarquia não favoreça a transferência do conhecimento em todas as direções, prejudicando sim as organizações a longo prazo.
Essa reflexão sobre
Brahmin,
Shudras ou até mesmo os
Párias faz parte de uma crítica pessoal sobre a indústria brasileira de software. Insistimos em copiar o modelo de desenvolvimento de software da Índia, que provavelmente foi desenvolvido sob a luz de uma estratificação característica da sociedade indiana e que mata a criatividade e talento característico brasileiro.
Aliás, na minha experiência de Fábrica de Software, o talento brasileiro não era de todo eliminado. As pessoas normalmente não acreditavam em certas atividades, então usavam o jeitinho brasileiro para burlar e subverter o que consideravam impróprio ou inadequado ao projeto.
Copiamos aqui o modelo indiano, enquanto profissionais dos países líderes se recusam a trabalhar em regimes de produção que desconsiderem o talento individual e prezam apenas pela produção massiva.
Já falei sobre isso aqui há dois anos atrás: enquanto a indústria de software dos
BRICs tem ênfase
Fordista, outros países como Suécia, Finlândia, EUA, Canadá e Japão trabalham em modelos mais evoluídos.
Seriam os
Párias das castas indianas os
Programadores da casta de software?
Voltando as vacas pretas...Depois do
fracasso geral da Carreira em Y nos ambientes tradicionais de produção de software, e considerando que o
Google não tem emprego para todo mundo, resta aos profissionais de pegada técnica encontrar caminhos para
preservarem a condição de agentes de produção intelectual em seus ambientes de trabalho.
Como esse tema vai dar muito pano para manga, encerro esse post por aqui, retomando mais tarde para falar como alguns desses aspectos são absolutamente enterrados no exercício de TI em outros mercados, principalmente os de
propaganda, entretenimento, mecatrônica e artes.
O mundo não está perdido! Abraços, valeu!