Multiplexado

Reflexões de um tecnólogo humanista no mundo da produção de conteúdo e propaganda interativos. Por Nandico (vulgo Fernando Aquino).
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Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

 

Alguns caminhos de inspiração para programadores em plataformas de conteúdo interativo


Ontem o @rafabarros postou em seu Twitter a seguinte questão:
"Aonde você vê interações diferentes, além do FWA, qual suas referências?"

O Rafa fez a pergunta para todos os seus followers. Achei a questão pertinente e fiz uma lista de algumas fontes de inspiração que utilizo.

Esse post leva uma carga pessoal muito grande, por favor, estou dividindo visões que talvez possam ser pertinentes para alguém. Fique a vontade para contestar se for o caso. =)

Vamos aos itens de inspiração:

1. Gosto de FWA, mas vejo somente quando alguem indica pontualmente


O FWA todo dia retorna um site bom. Isso gera um problema para mim: Analisar decentemente um site bom todo dia custa muito caro.

Para evitar esse trabalho, confio em uma rede de pessoas composta de contatos e amigos que me mandam links com os sites imperdíveis do FWA para que eu possa "decupar" os que interessam com calma, sem dispersar energia.

Um certo cuidado que também tomo com sites como o FWA é que é uma referência que já vem muito processada. Olhar um site do FWA é meio como usar um retrovisor: de certa forma aquilo já passou. Eu entendo e compartilho da inquietude do Rafa Barros pela busca de outras referências.

2. TV e Cinema


Boa parte do tempo que eu passo vendo TV a Cabo, fico observando soluções gráficas que os grandes canais usam para apresentar informações. Um exemplo recente de exploração dessa linha foi a cobertura das eleições americanas. Sei que a parte política é importante. Mas eu tava absolutamente vidrado nos múltiplos planos de informação que a TV usou (barras on-screen, projeções nos cenários, superfícies interativas e até hologramas).

Saindo um pouco do data-visualization, outra coisa que presto muita atenção é no uso de transições pela TV. Em qualquer ambiente gráfico profissional, nenhum elemento simplesmente aparece na tela. Tudo se constrói ou vem de algum lugar por algum motivo. A TV já trabalha isso há mais tempo que a internet. Falando nisso, como tempo é muito importante na TV, as transições de interface dos bons canais conseguem ser bonitas e ao mesmo tempo ágeis, enriquecendo a mensagem que precisa ser transmitida naquela ocasião. Não adianta o mestre Zeh Fernando nos dar um puta Tweener e a gente não ter condições de usá-lo por falta de "olho" treinado.

A parte do Cinema tem sido algo bastante novo para mim: Com a ocorrência cada vez maior de vídeo profissional em nossos trabalhos, estou começando a treinar a percepção de enquadramentos, planos e outras coisas técnicas que passavam batidas aos meus olhos. Isso tem me ajudado principalmente nos exercícios de 3D realtime sobre vídeo que experimentamos nos dois últimos jobs da casa.

Esse flerte com o cinema tradicional é importante e inspirado por algumas coisas lidas sobre estúdios como a Pixar, que usa a prática de simulação de câmeras e aparatos reais de um set de cinema nos ambientes virtuais de seus filmes - a expressão de uma linguagem - não o posicionamento arbitrário de cameras impossíveis que um ambiente digital permitiria. Em 2009 quero exercitar esse olhar para ter melhores condições técnicas de incorporar esses elementos em interfaces mais modernas.

3. Games


Essa referência é a mais óbvia. Hoje eu tenho um Nintendo DS e um Nintendo Wii e gasto um bom tempo analisando menus e soluções de interatividade antes de começar a jogatina. Comecei a prestar mais atenção nisso depois de um texto do Ted Nelson que li em 2006, onde ele observava o fato das interfaces de software serem horríveis e as de games legais. Segundo Nelson, "Os caras que criam videogames gostam de jogar videogames". Isso explicaria o fato das interfaces serem ágeis, rápidas e vivas. Não vou me alongar porque a inspiração pelos games é meio óbvia =).

4. APIs, experimentos, libraries brutas


Gosto do exercício de ver material bruto produzido por programadores (bibliotecas, componentes, APIs) e tentar aplicar o "olho de thundera" que possa viabilizar a implementação de alguma nova idéia.

Normalmente trabalhamos em viés humanizado, onde buscamos soluções técnicas que nos ajudem a implementar idéias que alguém da equipe já teve (redatores, diretores de arte, diretor de criação). Mas as vezes é bom quebrar isso e analisar a possibilidade de podemos descobrir avanços técnicos inéditos acessando material bruto.

Dividimos isso com as pessoas de criação para tentarmos conceber algo totalmente novo abrindo novas portas técnicas. A maioria dos novos recursos de plataforma passa um tempo sem que as pessoas achem soluções de uso criativas para eles. Quem desenvolve essas soluções primeiro, sai na frente e obtem bons resultados. Por isso talvez seja legal estarmos sempre por dentro de novos features nas plataformas em que trabalhamos (de preferência antes que alguém ganhe FWA, Cannes ou algo parecido explorando essa pegada).

Dessa forma, a gente consegue participar ativamente do tão falado throughput criativo, alimentando a galera de criação com novas possibilidades técnicas.

5. Impressos, arte


Venho pegando gosto em fuçar em anuários, material de tipografia, livros de referência de direção de arte e material impresso. O movimento me atrai. E em bons trabalhos impressos é possível perceber movimento mesmo com o papel a zero FPS.

Pois bem: seria mais fácil de me achar na Bienal do que no Campus Party ou algo parecido. Longe de mim querer bancar o entendido - sou um ignorante em termos artísticos. A única linguagem que eu conheço um pouco mais é a música, pelo fato de ser músico amador já faz um tempo. Mas até a Bienal que eu saí reclamando me ensinou alguma coisa. O importante é prestar atenção e tentar olhar as coisas de um jeito que seu cérebro consiga trabalhar para transformar aquele estímulo em uma referência no futuro.

E o mais importante: Vida, relacionamentos, pessoas


No plano pessoal, tento achar elementos físicos com as mesmas virtudes que procuramos no mundo virtual. Ao entrar numa concessionária e sentar num carro mais moderno, o simples exercício de pensar e comparar a disposição dos controles pode ser bom para sua cabeça. É um processo de análise e síntese que te ajuda no seu trabalho. Quem tem dificuldades com modelagem e abstração, pode também decompor o carro funcionalmente. E daí por diante.

Passamos o tempo todo consumindo informação desde o painel de vôos do aeroporto, o fliperama do shopping e o telefone celular. Ter tempo para sair do trabalho e viver normalmente ajuda bastante. Se conseguirmos prestar atenção nessas coisas sem que isso atrapalhe a nossa vida, que beleza! Eu fico 'nerdizando' até em placa de estrada e graças a Deus nunca bati o carro (por causa disso, já bati por outras coisas). No dia que começar a atrapalhar, eu tento parar (prometo).

E tem pessoas que são uma lição a cada encontro. Aprendo todos os dias com amigos, minha equipe e meus clientes. Interagir é ótimo! Quando não é possível, eu observo - gente pequena, gente grande, gente nerd ou old-school. Essas pessoas é que consomem as coisas que a gente programa.

Será que conta como referência podermos observar o comportamento delas?

Rafa, valeu pela inspiração do post! Abraços...

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